quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Imagens

Uma imagem fala mais que mil palavras? Entrando no senso comum, respondo que sim. Uma imagem pode nos trazer uma porção de possibilidades, de sentimentos, de reflexões, que não se limita a significados e significantes únicos.

Os dois últimos filmes que assisti tratam de imagens e seu poder, mas de formas diferentes.

O primeiro, O Artista, quase não há som. É um regresso ao mundo do cinema mudo dos anos 20. Delicioso. Fino até o último fio de bigode do ator principal – o excelente e extremamente charmoso Jean Dujardin —, é cinema de primeira, que se apropria dos elementos dos grandes mestres do cinema mudo, homenageando-os. A fotografia é belíssima, assim como o figurino. Não é um filme de discussão e sim de apreciação. O exercício é outro, é contemplar e se divertir com qualidade. Algo bem escasso nos últimos tempos.

O segundo foi por acaso. Noite de carnaval, tevê aberta e eis que surge na programação da TV Cultura o documentário “Fotógrafo de Guerra”  de Christian Frei, sobre o trabalho de James Nachtwey.

Confesso que desconhecia o fotógrafo em questão. Gosto do assunto, mas nunca me aprofundei ao ponto de procurar o responsável por fotos de conflitos ou outras situações de penúria.

Sou apaixonada peplo trabalho de fotógrafos de guerra, antes de me considerarem masoquista por gostar de fotos que saem do padrão “Vogue+Testino” de ser, defendo-me por acreditar que beleza, mesmo triste ou vergonhosa, está além do mote. Um olhar de uma criança numa guerra é capaz de contar a história do momento.

Assim como o fotógrafo, também estudei Ciências Políticas. Queria entender porque vizinhos viram sanguinários assassinos quando o contexto muda. O que são estas guerras e porque as permitimos. Existe beleza na dor?Enfim, não daria para enumerar a mistura de sentimentos e questões que povoavam minha cabeça ao decidir estudar algo além de Artes.

As declarações de Nachtwey reforçam minhas indagações sobre sofrimento humano. Em uma parte do documentário ele fala sobre o fato das publicações não se interessarem mais por este tipo de imagem, pois os anunciantes não querem estar associados a conflitos, à miséria, à verdade. O que em minha opinião é uma pena,  pois vivemos realidades imagéticas conflitantes, cujo resultado pode empobrecer nossa capacidade de ver e aprender história.

Lembrei-me agora de Saramago que afirmou, acho que foi no documentário Janela da Alma, que hoje vivemos na caverna de Platão. Não queremos ver, vivemos de imagens refletidas e maleáveis a nossa vontade.

Por outro lado, vou além do Mito da Caverna. Até saímos da caverna mas nos afogamos num  mar de imagens cujo desafio é selecionar o que realmente importa, mesmo que não seja lá muito agradável. E eliminarmos estas verdadeiras porcarias sensacionalistas, cuja miséria vai além do tema e está no cerne dos responsáveis. Ou seja, por trás destas imagens deve ter um mínimo de ética, de respeito ao sofrimento, à situação e sobressaindo ao lucro, do contrário perdemos tempo com a miséria intelectual alheia.

Mais que capturar o momento e nos contar tristes e reais histórias, Nachtwey pensa sobre as mesmas, sabe de sua responsabilidade com aqueles que expõem, preocupa-se em separar seu trabalho do oportunismo. É o artista da realidade. Como um Goya moderno, abre nossos olhos para horrores que acontecem logo ali e que parece não haver sentido na Modernidade. Mas a Modernidade não é uniforme. Muito menos é sinônimo de civilidade. Eis o resultado, ainda existem conflitos que mais parecem remakes de guerras de eras longínquas.

A obra de Nachtwey denuncia, porém não deixa de ser Arte. Seu objeto é o ser humano desprovido de tudo. E como artista ele se envolve, mesmo sabendo dos perigos que corre ao assumir esta postura e que seus apelos não serão ouvidos.

Vale a pena dar uma olhada no site e conhecer seu trabalho: http://www.jamesnachtwey.com/. E parabéns a TV Cultura pela qualidade de sua programação,

 - War Photographer – Christian Frei, 2001
 - O Artista de Michael Hazanavicius, 2011.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

UM ILUSTRE DESCONHECIDO

  É fato o complexo de vira-lata sofrido por todos nós, brasileiros. Não sei se isto é um problema de país novo. Será que os australianos sentem a mesma coisa? Enfim, acabamos deixando de lado aquilo que nos torna especial e valorizamos excessivamente o de fora — mesmo com toda a crise vigente.

  Outro aspecto que nos singulariza é nossa capacidade de descarte em relação ao passado. O moderno, o vigente, o na moda, solapam qualquer resquício do que passou. É um problema grave, crônico de memória coletiva, cujo sintoma principal é o agora.

  E tais características permeiam todos os níveis da vida, inclusive nas Artes Plásticas.

  Hoje fui apresentada a um tal de Eliseu Visconti, o qual já tinha visto um quadro no acervo da Pinacoteca e nada além disso. Na verdade, este encontro teve algumas pré-apresentações: um cartaz em frente á Pinacoteca do Estado — local da exposição — e a reportagem da revista Bravo.

  Curiosa após a leitura, eu quis ver de perto a obra deste até então desconhecido artista antecessor dos famosos modernistas. E fiquei maravilhada com que vi. Ás vezes dá impressão que Arte Brasileira só passou a existir depois da Semana de 22.

  Não desmerecendo o destaque e a importância da referida geração de 22, porém fiquei surpresa com o que vi. Foram quase duas horas percorrendo as salas contendo pinturas de várias épocas e colecionadores. Como sempre, a Pinacoteca mostrou-se extremamente competente em todos os aspectos: curadoria, organização, disposição das obras, assim como a escolha das mesmas, textos, enfim, um trabalho que ela vem realizando há tempos e que corrobora com a importância dessa instituição cultural em nossas vidas cinza paulistanas.

  Eliseu Visconti (1866-1944) nasceu na Itália, mas foi aqui que construiu sua carreira. Pintor coerente, mas sem perder a ousadia, abusou de técnicas, inclusive não teve medo dos preceitos impressionistas. Membro da Escola Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro, Eliseu tornou-se o primeiro professor de design da Escola Politécnica — na exposição há desenhos de cartazes para a Cia Antarctica, isto mesmo, a cerveja. Fez pinturas para o Teatro Municipal do Rio de Janeiro, cerâmicas maravilhosas, particularmente me encantei com os vasos. E há estudos de estampas.

  No segundo andar, juntamente com o acervo, há uma sala dedicada somente aos seus auto-retratos: o que possibilita compararmos o seu ir e vir de técnicas, num movimento contínuo de clássico-moderno, que nos mostra que boa Arte não precisa se engessar ou aderir ao que está em voga.

 Seu trabalho com cor, a diluição das formas nos momentos mais impressionistas e a temática do cotidiano depõe visualmente sobre o contexto da época. Da elite às favelas, tudo parecia interessar o artista. Suas paisagens flutuam pela delicadeza. Esta é uma boa palavra para ele: é um pintor da delicadeza, da beleza, da suavidade, mesmo quando se utiliza de paletas mais escuras, prevalecendo marrons e ocres. Suas estampas e cerâmicas são claramente influenciadas pela estética art-decó.

  Pensando em processos históricos, Eliseu Visconti é uma espécie de ponte, de “liga”, que inicia o passo para os modernos. Ele não rompeu, ele propôs. É aquele que vai preparando o terreno com pitadas ali, acolá de pequenas experiências.

  Se respeitássemos mais nossos “mortos”, nossos “legados”, um pintor como Eliseu Visconti estaria num programa curricular de História da Arte do Brasil. Aliás, não sei como andam os currículos dos bacharelados de Artes, eu, por exemplo, não tive nada de História da Arte do Brasil.

  Pois bem, meu caro Eliseu, foi um imenso prazer, foram horas memoráveis e espero que este resgate organizado pela Pinacoteca lhe dê mais destaque no nosso cenário artístico ainda tão novo e já tão desmemoriado.


 Exposição: Eliseu Visconti - A Modernidade Antecipada –
 Pinacoteca do Estado – até 26/02

P.S.: Também na Pinacoteca há uma exposição do pintor uruguaio Joaquim Torres Garcia.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Aprendendo Arte

Quando entrei na faculdade de Artes Plásticas era uma verdadeiramente analfabeta no assunto. Gostava de desenhar, mas o máximo de conhecimento que eu tinha era que existia um tal de Van Gogh que cortou a orelha e Picasso (sempre ele).

O curso em si foi mais prático que teórico e as poucas aulas de História da Arte passaram de forma que sequer senti. Aulas de Estética ou Filosofia da Arte, nem em sonhos.

Foi ótimo o que aprendi na prática. Aprendi muito sobre cor, sobre pigmento, sobre composição, enfim, coisas que me pareciam inatas quando se desenha. Mas, por outro lado, faltava alguma coisa. Eu não conseguia verbalizar ou escrever sobre Arte. Li pouquíssimo no período e algumas coisas me pareciam mais abstratos que algumas pinturas. O processo artístico era muito físico, mais mão que olho, mais coração que cérebro e o resultado pendia para mais para o acidental.

Mas há coisas que não se aprendem na escola. E, no meu caso, foi fora dela que comecei a entender um pouco de Arte.

Arte se aprende no olho. Olho no museu. Olho em livros de gente que já viu muito. Olho em reproduções.  Não há para ser de outro jeito. Como processo histórico, se você não faz parte do momento em voga de determinada produção artística, fica difícil “tentar” entender o que é aquilo. Em determinados casos, esta “descoberta” procede alguns períodos para chegarmos ao grau de entendimento do artista.

Como um idioma estrangeiro, tem que ser treinado constantemente para ganhar-se fluência. Aliás, Arte é um idioma. Um idioma que funde vários dialetos, várias crenças, vários contextos, várias visões de mundo. Nada homogêneo, mas que soma diferenças. Eis o ideal da grande Arte: Unir — olhares, gostos, divergências, esquisitices, beleza.

Mas ler sobre Arte, estudar Arte, questionar Arte, longe de cair na armadilha do “capital cultural de Bourdier”, parece desvalorizado. Dificilmente encontro alguém que queria ser crítico de alguma coisa. Artista sim. Quem sabe historiador, mas o lugar do crítico parece estigmatizado com piadinhas do tipo: “todo crítico é um artista frustrado”.

Será mesmo? A meu ver, o trabalho do crítico é uma busca incansável de conhecimento. É aquele que longe de ditar tendências ou destronar um a favor de outro, é alguém que não pode ser despido de tenacidade e curiosidade. Para tanto, assim como o historiador, tem que ter os pés no passado e os olhos no presente. Crítico não nasce do nada, ele torna-se crítico. Não há geração espontânea de crítico.  Muitas vezes pego livros que li há tempos e me espanto com a clareza de pensamento de alguns especialistas e críticos.

O que seriam de nossos mestres eternos sem os críticos para corroborarem com seus acertos e erros?

Não tenho certeza, mas de uma coisa eu sei, sou ainda um embrião nesta área.


P.S.: Semana especial com inauguração de exposição nesta quarta no MASP , "Roma - A Vida e os Imperadores" e no sábado a inauguração do Museu de Arte Contemporânea no antigo prédio do Detran, no Ibirapuera.

domingo, 8 de janeiro de 2012

Processos

Na hiper-valorização por resultados e pelo imediatismo torna-se difícil a contemplação pelos processos. Pode soar como um pleonasmo, mas tudo parece “nascer pronto” hoje em dia. Não sentimos. Não temos consciência do período de gestação. É um mundo de insights e produtos, o desenvolvimento da ideia não nos cabe, pois não é atraente, no grande mercado não se vende processo, vende-se produto. Ou seja, num mundo de pregações sustentáveis, tudo é descartável. Antagônico? Sim, mas convivem em perfeita harmonia.

Nesta invisibilidade do fazer, do refazer, do testar, perdemos aquilo que nos fazem diferentes das máquinas, nossa capacidade de olhar novamente e pensar de outra forma. Analisar emocionalmente, quebrar a cabeça, raciocinar de modo diferente, buscar pelo melhor mediante nossas capacidades de ir além.

A cada olhada nas etiquetas de um produto novo, nos deparamos com produtos vindos de lugares longínquos, distanciando o saber fazer do seu consumidor final. No seu bairro tem um sapateiro razoavelmente bom? Coloque-o num trono. Há uma costureira? Nossa, que sorte você tem! E faxineira? Até que a oferta é maior, porém encontrar uma qualificada é uma árdua pesquisa. Estes são alguns exemplos de profissionais que não estão no topo das tendências profissionais que os gurus do Vale do Silício apontam, contudo esses insistem em mostrar sua importância.

Alguém pode argumentar. Para quê se tudo é descartado de uma estação para outra? Para dar valor as coisas, rebato pensando nos grandes artesões de marcas luxuosas de bolsas, nos funcionários de vinícolas cujo trabalho é virar as garrafas para não estragar o vinho armazenado para, quiçá ser um dia consumido.

Ironicamente, o artesão quase extinto diante de tanto maquinário, é o que dá status a este tipo de produto. E, felizmente, nas Artes, assim como na produção de um vinho, ou de uma bolsa Birkin, da Hermés, temos a corroboração da importância dos processos, do fazer.

Pensei nisto ao observar a reprodução de “Mulher Chorando” de Picasso. Não precisa gostar necessariamente de Picasso para apreciar sua genialidade. Eu mesmo gosto mais de outras obras do pintor. Todavia, naquele momento, cada detalhe deste quadro me suscitou uma porção de pensamentos e questionamentos, além de uma curiosidade natural de pelo fazer, pelo criar, pelo processo em si. Cada pincelada, cada cor, cada traço, são decisões, nem sempre conscientes, a serem tomadas. Decisões que não podem ser tomadas com a isenção de emoção de um computador. Criatividade não é um processo de combinação matemática, é um processo contínuo de acúmulos diários, de vivência. A meu ver, pessoas criativas são aquelas que não tem medo de surpreender-se diante da vida. São curiosas em aprender, melhor, apreender o que vier.

No meu discurso pró-processos incluo outras Artes como a Música, a Literatura, a Dança, a Dramaturgia e até mesmo saberes cotidianos como cozinhar, plantar, conversar Tetê-a-tete. E questiono outro processo, inverso deste associado ao saber-fazer, ao ler uma reportagem no Estadão sobre o oferecimento redes Wifi free nas praias. Será que esta automatização humana não está tirando o que temos de melhor? Nossa capacidade de errar e aprender fazendo.

domingo, 1 de janeiro de 2012

"Por que não me ufano"

Á Daniel Piza

 Ainda estou em choque. 

Choque emocional, choque cultural, choque intelectual.

 Ele morreu na sexta à noite e só hoje, ao decidir dar uma olhada nas notícias, após breves folgas digitais, descobri que ele se foi. Assim, sem mais nem menos. Sem tempo para o adeus.

 Foi como se um professor muito querido houvesse partido. Na verdade, ele sempre foi meu professor e nunca soube. Não deu tempo de contar. 

 Nos meus vinte e poucos anos, logo após terminar a faculdade de Artes Plásticas e ainda sem saber o que fazer,eu fui trabalhar na recepção de uma grande empresa que recebia vários jornais. E entre eles estava a Gazeta Mercantil. Embora não gostasse de economia, para passar o tempo, comecei a ler e, foi ali, que descobri o Daniel Piza.

 Virei fã. Decidi cursar outra faculdade. Queria não só desenhar, mas escrever, aprender, ler, expor meu ponto de vista. Gostava de Arte, mas também de Política Internacional, de Urbanismo, de gente ousada que lia, pensava e comentava. Queria ser tão boa quanto ele.

 Cheguei a ir a uma palestra sua. Tive vergonha de cumprimentá-lo no final de sua exposição. Assim como tive vergonha de escrever um email elogiando alguma crônica sua. Dias desses até penei nisto, mas nada. 

Semana passada no Estadão, achei-o meio triste. Todavia pensei: tudo bem, domingo que vem ele estará com a corda toda. Só que isto não aconteceu. E um vazio enorme e um nó na garganta apoderaram-me ao ponto de não conseguir sossegar até começar a escrever este post.

 Apesar de mais nova, considero-me da mesma geração. De gente que lê sobre tudo, que gosta de uma boa conversa, que considera escrever mais que um exercício, mas uma forma de ser. Hoje em dia há tantos blogs, tantas facilidades, no entanto nada com sustância. De vez em quando encontro alguma coisa. Mas, no geral, há muito cópia e cola. Há mais legendas que escritos. Tudo muito artificial, mas sem opinião genuína, sem desenvolvimento do intelecto. Todo mundo tem um blog, mas do quê? A meu ver, de nada. 

 Ser crítico dá trabalho. Escrever sobre Arte, sobre livros, sobre a que está acontecendo, exige esforço, introspecção, capacidade de análise e certa dose de humildade. Humildade em tirar o foco em quanto você e olhar para o outro, para fora, com olhar guloso, de aprendiz e com entusiasmo frente ao novo.

 Já estou com saudades. E uma forma de enganá-la é escrevendo. Não cheguei lá, ainda. Dei muitas voltas e assim, como não acreditei que poderia te enviar um email e não pareceria tola, acabei deixando de lado a doce escrita. 

 Recomeço. Gostaria que fosse sem perdas. Mas tenho um bom motivo: aprender a ser um pouquinho como você. 

 Persisto: Feliz 2012.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Pequena poesia

Foi o Zé que o apresentou. Novinha, recém saída da faculdade de artes, cheia de sonhos, ilusões e daquele orgulho típico dos jovens que acham que sabem de tudo, fiquei impressionada.

Só que não sabia se era pelo Zé ou por este outro Zé (José Leonilson Bezerra Dias).

As frases bordadas, os pequenos desenhos, as cores dos tecidos. Todo aquele mundo sensível, de alguém que parecia estar sempre em busca de amores impossíveis, encaixava-se perfeitamente nos meus vinte e poucos anos.

Ia ao MAM no domingo cedo só para usar a biblioteca e assistir um filme com o artista. Chorava sem vergonha. Era chic ser sensível. Ainda mais nos meados da tão clean década de 90.

Todavia, não sabia explicar, achava bonito, o Zé achava lindo, todo mundo que eu conhecia dizia amém.

Cresci, fiquei mais cínica, menos melosa, mais centrada e, para variar, deixei para o último dia para ver a exposição do artista — “sob o Peso dos Meus Amores” — no Itaú Cultural.
Três salas só de Leonilson. Três salas muito bem organizadas com o de melhor deste grande artista. Três salas para percorrer sem pressa, observando detalhes, as nuances, as confissões em miudezas.

Surpreendi-me. Descobri que não sabia nada. Não conhecia seus primeiros desenhos, suas pinturas cheias da simbologia própria do artista. Cartões postais, pequenas ilustrações para amigos — as melhores eram para o amigo e também artista plástico, o alemão Albert Hien.

Esculturas, projetos, os brinquedos de sua coleção, suas pinturas com cores fortes que ressaltam ainda mais seus símbolos e, como não podiam faltar, os bordados. Bordados que desenham; bordados que recitam cenas de uma vida intensamente vivida, gentilmente compartilhada. Vida que se desfez como tantas por uma doença que matou outros grandes artistas das décadas de 80/90.

Nascido em Fortaleza em 1957, Leonilson veio para São Paulo ainda criança. E aqui decidiu ganhar o mundo. Viajar, viajar, viajar. Aprender com a vida, com livros, livre de rédeas acadêmicas, quis mais. Quis experimentar. Ousar. Atravessar fronteiras. Verdadeiramente multimídia, ia além da pintura e criava cenários, figurinos, instalações, esculturas.

Mas é a pintura — sempre ela — que temos o ápice de sua delicadeza com a vida. Com um traço cada vez mais limpo, seu desenho vai simplificando à medida que inicia a sua despedida.

Poeta visual, funde o texto com a imagem. É o que mais me cativa: esta diluição concentrando o que realmente importa. E os bordados são a representação perfeita deste momento.

Difícil não se envolver. Seja pela riqueza plástica, seja pela pura poesia presente em cada obra. “O que Você Desejar, o que Você Quiser, Eu Estou Aqui, Pronto para Serví-lo” está bordado na barra de um vestido singelo, cujo encanto está na ausência de cor, de excessos, servindo perfeitamente de suporte para a força da frase citada.

Começo a entender. Começo a gostar agora sabendo porque. Não foi para impressionar o Zé. É porque este Zé é impressionante.

Injusto escrever sobre algo que já passou. Mas não podia deixar em branco. E há bons livros sobre o artista, a enciclopédia eletrônica do Itaú Cultural (www.itaucultural.org.br/encilopedias) tem boas indicações e é sempre possível cruzar com alguma arte por aí.

Parabéns ao Itaú Cultural. Linda exposição. Extremamente bem feita e justa para a grandeza de Leonilson.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Rapidinhas

Último final de semana da exposição do Leonilson, no Itaú Cultural. Vale a pena conferir. É de graça, o lugar é bem legal e é pertinho do metrô. Sem desculpas...

E no sábado tem lançamento do livro de aquarelas da Renina Katz. A Pinacoteca é de graça no sábado. Linda demais e vale a pena caminhas pelo Jardim da Luz. Ah, se for de manhã, dá para dar uma esticadinha no Bom Retiro e comer bureka na Casa Búlgara. Delícia...



- Itaú Cultural
Avenida Paulista, 149 - próximo à Estação Brigadeiro do metrô.
Terça-Sexta , das 09h00 às 20h00
Sábado-Domingo: 11h00 às 20h00

- Pinacoteca do Estado
Praça da Luz, n2
Terça-Domingo, das 10h00 às 17h30

- Casa Búlgara
Rua Silvia Pinto, 356 - Bom Retiro