Uma imagem fala mais que mil palavras? Entrando no senso comum, respondo que sim. Uma imagem pode nos trazer uma porção de possibilidades, de sentimentos, de reflexões, que não se limita a significados e significantes únicos.
Os dois últimos filmes que assisti tratam de imagens e seu poder, mas de formas diferentes.
O primeiro, O Artista, quase não há som. É um regresso ao mundo do cinema mudo dos anos 20. Delicioso. Fino até o último fio de bigode do ator principal – o excelente e extremamente charmoso Jean Dujardin —, é cinema de primeira, que se apropria dos elementos dos grandes mestres do cinema mudo, homenageando-os. A fotografia é belíssima, assim como o figurino. Não é um filme de discussão e sim de apreciação. O exercício é outro, é contemplar e se divertir com qualidade. Algo bem escasso nos últimos tempos.
O segundo foi por acaso. Noite de carnaval, tevê aberta e eis que surge na programação da TV Cultura o documentário “Fotógrafo de Guerra” de Christian Frei, sobre o trabalho de James Nachtwey.
Confesso que desconhecia o fotógrafo em questão. Gosto do assunto, mas nunca me aprofundei ao ponto de procurar o responsável por fotos de conflitos ou outras situações de penúria.
Sou apaixonada peplo trabalho de fotógrafos de guerra, antes de me considerarem masoquista por gostar de fotos que saem do padrão “Vogue+Testino” de ser, defendo-me por acreditar que beleza, mesmo triste ou vergonhosa, está além do mote. Um olhar de uma criança numa guerra é capaz de contar a história do momento.
Assim como o fotógrafo, também estudei Ciências Políticas. Queria entender porque vizinhos viram sanguinários assassinos quando o contexto muda. O que são estas guerras e porque as permitimos. Existe beleza na dor?Enfim, não daria para enumerar a mistura de sentimentos e questões que povoavam minha cabeça ao decidir estudar algo além de Artes.
As declarações de Nachtwey reforçam minhas indagações sobre sofrimento humano. Em uma parte do documentário ele fala sobre o fato das publicações não se interessarem mais por este tipo de imagem, pois os anunciantes não querem estar associados a conflitos, à miséria, à verdade. O que em minha opinião é uma pena, pois vivemos realidades imagéticas conflitantes, cujo resultado pode empobrecer nossa capacidade de ver e aprender história.
Lembrei-me agora de Saramago que afirmou, acho que foi no documentário Janela da Alma, que hoje vivemos na caverna de Platão. Não queremos ver, vivemos de imagens refletidas e maleáveis a nossa vontade.
Por outro lado, vou além do Mito da Caverna. Até saímos da caverna mas nos afogamos num mar de imagens cujo desafio é selecionar o que realmente importa, mesmo que não seja lá muito agradável. E eliminarmos estas verdadeiras porcarias sensacionalistas, cuja miséria vai além do tema e está no cerne dos responsáveis. Ou seja, por trás destas imagens deve ter um mínimo de ética, de respeito ao sofrimento, à situação e sobressaindo ao lucro, do contrário perdemos tempo com a miséria intelectual alheia.
Mais que capturar o momento e nos contar tristes e reais histórias, Nachtwey pensa sobre as mesmas, sabe de sua responsabilidade com aqueles que expõem, preocupa-se em separar seu trabalho do oportunismo. É o artista da realidade. Como um Goya moderno, abre nossos olhos para horrores que acontecem logo ali e que parece não haver sentido na Modernidade. Mas a Modernidade não é uniforme. Muito menos é sinônimo de civilidade. Eis o resultado, ainda existem conflitos que mais parecem remakes de guerras de eras longínquas.
A obra de Nachtwey denuncia, porém não deixa de ser Arte. Seu objeto é o ser humano desprovido de tudo. E como artista ele se envolve, mesmo sabendo dos perigos que corre ao assumir esta postura e que seus apelos não serão ouvidos.
Vale a pena dar uma olhada no site e conhecer seu trabalho: http://www.jamesnachtwey.com/. E parabéns a TV Cultura pela qualidade de sua programação,
- War Photographer – Christian Frei, 2001
- O Artista de Michael Hazanavicius, 2011.